21 de set de 2011

AMANTE VINGADO - 1º CAPÍTULO



– O Rei tem de morrer.
Cinco palavras. Separadas, não significam nada especial. Juntas?
Trazem todo tipo de problemas. Assassinato. Deslealdade. Traição.
Morte.
Nos tensos momentos após ouvi-las, Rehvenge se manteve em silêncio, deixando o quinteto de palavras pairando no ar denso do escritório, cinco pontas de uma bússola maligna e obscura com a qual
ele estava intimamente familiarizado.
– Tem alguma resposta? – perguntou Montrag, filho de Rehm.
– Não.
Montrag piscou e arrumou o cachecol de seda no pescoço. Como a maioria dos membros da glymera, ele se vestia e se comportava de acordo com os costumes da alta classe. Ou seja, era simplesmente impecável, em todos os aspectos. Com seu paletó personalizado, calça risca de giz e... caramba, aquilo eram polainas?... parecia ter acabado
de sair das páginas da Vanity Fair.[1] De uns cem anos atrás.
E com seu ar de superioridade e suas brilhantes ideias, ele era como
Kissinger[2] sem um presidente no que se refere à política: muita análise, nenhuma autoridade.
O que explicava aquela reunião, não é mesmo?
– Não pare – disse Rehv. – Você já está em queda livre. O impacto não será suave, de qualquer maneira.
Montrag franziu a testa.
– Desculpe, não consigo ver a situação com o mesmo senso de humor.
– E quem está rindo?
Uma batida na porta do escritório fez que Montrag virasse a cabeça, e ele tinha o perfil de um cachorro da raça Setter Irlandês: era todo nariz.
– Entre.
A doggen que respondeu à ordem entrou lutando com o peso da prataria que carregava. Com uma bandeja de ébano do tamanho de uma porta nas mãos, atravessou a sala encurvada por causa da carga.
Até que levantou a cabeça e viu Rehv.
Congelou como numa fotografia instantânea.
– Tomaremos o chá aqui – Montrag apontou a mesa que havia no meio dos dois sofás de seda onde estavam sentados. – Aqui.
A doggen não se moveu, apenas encarava fixamente o rosto de Rehv.
– Qual é o problema? – perguntou Montrag quando as xícaras começaram a tremer, e um som tilintante surgiu da bandeja. – Ponha nosso chá aqui, agora.
A doggen inclinou a cabeça, murmurou algo e avançou devagar, pondo um pé diante do outro como se estivesse se aproximando de uma serpente pronta para dar o bote. Ficou tão afastada de Rehv quanto possível e, depois de deixar a prataria, suas mãos trêmulas mal conseguiam colocar as xícaras sobre os pires.
Quando chegou a vez do bule, era evidente que ia derramar o líquido por todos os lados.
– Deixe-me fazer isso – disse Rehv, esticando a mão.
Quando a doggen fez um movimento brusco para afastar-se dele, o bule escorregou de suas mãos e o chá começou a cair.
Rehv aparou a prata quente entre a palma das mãos.
– O que você fez! – exclamou Montrag, levantando-se com um salto do sofá.
A doggen encolheu-se, levando as mãos ao rosto.
– Sinto muito, meu amo. Verdadeiramente, eu…
– Oh, cale-se e nos traga um pouco de gelo…
– Não é culpa dela. – Rehv segurou calmamente o bule e começou a servir. – E eu estou muito bem.
Os dois olharam para ele como se estivessem esperando que Rehv começasse a pular e a gritar com as mãos queimadas. Mas ele apenas apoiou o bule de prata e encarou os olhos pálidos de Montrag.
– Um torrão, ou dois?
– Posso… posso oferecer algo para essa queimadura?
Rehv sorriu, mostrando as presas a seu anfitrião.
– Estou muito bem.
Montrag pareceu ofendido por não poder fazer nada e transferiu sua insatisfação para a criada.
– Você é uma desgraça absoluta. Saia daqui.
Rehv lançou um olhar à doggen. Para ele, as emoções da moça eram como uma grade tridimensional de medo, vergonha e pânico, uma trama que enchia o espaço que a rodeava da mesma maneira como faziam seus ossos, músculos e pele.
Fique tranquila – disse a ela em pensamento. – E saiba que vou consertar isso.
A surpresa queimou seu rosto, mas a tensão deixou seus ombros e ela deu a volta aparentando estar muito mais calma.
Quando se foi, Montrag pigarreou e voltou a se sentar.
– Não acredito que ela vá se encaixar aqui. É absolutamente incompetente.
– Por que não começamos com um torrão? – Rehv deixou cair um cubo de açúcar dentro do chá. – E depois veremos se vai querer outro.
Estendeu a mão com a xícara, mas não a aproximou muito, para que Montrag se visse forçado a levantar mais uma vez do sofá e a inclinar-se sobre a mesa.
– Obrigado.
Rehv não soltou o pires enquanto plantava uma mudança de pensamento
na mente de seu anfitrião.
– Deixo as fêmeas nervosas. Não foi culpa dela.
Abriu a mão de repente, e Montrag se esforçou para segurar a porcelana.
– Ops! Não derrame. – Rehv voltou a se reclinar no sofá. – Seria uma pena manchar este tapete tão fino. Aubusson, não é?
– Ah… sim. – Montrag voltou a sentar-se e franziu a testa, como se não tivesse ideia de por que se sentia diferente com relação à sua criada. – Hum… sim, é. Meu pai comprou faz muitos anos. Tinha um gosto requintado, não? Construímos esta sala para este tapete, pois é muito grande e a cor das paredes foi escolhida especificamente para ressaltar seus tons de pêssego.
Montrag observou o escritório e sorriu para si mesmo enquanto bebia, com o dedo mindinho estendido no ar como se fosse uma bandeira.
– Como está seu chá?
– Perfeito, mas você não tomará um pouco?
– Não gosto muito de chá. – Rehv esperou até que a xícara estivesse nos lábios do cara. – Então, estava falando de assassinar Wrath?
Montrag cuspiu, o chá salpicou seu roupão vermelho sangue e sujou
o estupendo tapete do papai.
Quando o homem começou a golpear as manchas com a mão vacilante,
Rehv lhe estendeu um guardanapo.
– Aqui, use isto.
Montrag pegou-o e deu tapinhas sem jeito no peito e, em seguida, esfregou o tapete com a mesma falta de resultados. Evidentemente, ele era o tipo de homem que fazia bagunças, não o homem que as limpava.
– O que estava dizendo? – murmurou Rehv.
Montrag atirou o guardanapo na bandeja e ficou em pé, deixando o chá para trás ao passear pelo cômodo. Deteve-se em frente a um quadro de uma grande paisagem montanhosa e pareceu estar admirando a dramática cena, onde havia um soldado colonial rezando.
Começou a falar voltado à pintura.
– Está ciente de que muitos irmãos de sangue foram abatidos nos ataques dos redutores.
– E eu aqui pensando que tinham me escolhido lídher do Conselho por causa da minha animada personalidade.
Montrag o olhou agressivamente por cima do ombro, seu queixo erguido de uma maneira classicamente aristocrática.
– Perdi meu pai, minha mãe e todos os meus primos e irmãos.
Enterrei cada um deles. Pensa que isso é motivo de piada?
– Minhas desculpas. – Rehv colocou a palma da mão direita sobre o coração e inclinou a cabeça, apesar de não dar a mínima para isso. Não seria manipulado pela menção de suas perdas. Especialmente quando todas as emoções do cara falavam de cobiça e não de dor.
Montrag deixou a pintura atrás de si e sua cabeça ocupou o lugar da montanha sobre a qual estava o soldado colonial... o que dava a impressão de que o pequeno homem de uniforme vermelho estava tentando subir pela sua orelha.
– A glymera tem sofrido perdas sem precedentes por causa dos ataques.
Não apenas vidas, mas também propriedades. Casas invadidas, antiguidades e obras de arte roubadas, contas de banco desaparecem.
E o que Wrath fez? Nada. Não deu qualquer resposta às freqüentes perguntas a respeito de como foram encontradas as residências dessas famílias… por que a Irmandade não deteve os ataques… e onde foram parar todos esses bens. Não há um plano para assegurar que isso nunca mais volte a acontecer. Não nos oferecem nenhuma garantia de que se os poucos membros restantes da aristocracia retornassem a
Caldwell, estariam protegidos. – Montrag realmente se entusiasmou, sua voz se elevava e ricocheteava contra o teto dourado. – Nossa raça está morrendo e precisamos de uma verdadeira liderança. No entanto, por lei, enquanto o coração de Wrath continuar pulsando em seu peito, continuará sendo o rei. A vida de um é mais valiosa que a vida de muitos? Examine seu coração.
Oh, Rehv o examinava, observava todo aquele músculo rígido, mal e obscuro.
– E então?
– Assumimos o controle e fazemos o correto. Durante seu reinado,
Wrath reestruturou coisas... Olhe o que fez pelas Escolhidas. Agora estão autorizadas a se acasalar deste lado… isso não tem precedentes!
E a escravidão está abolida, junto com o ehnclausuramento para as fêmeas. Caríssima Virgem Escriba, só falta a Irmandade começar a aceitar fêmeas como guerreiras! Se nós estivermos na liderança, podemos reverter o que ele tem feito e reformar as leis adequadamente para preservar as tradições. Podemos organizar uma nova ofensiva contra a
Sociedade Redutora. Podemos triunfar.
– Você está usando muitos nós, mas não acredito que isso represente exatamente o que tem em mente.
– Bem, é obvio que precisa haver um indivíduo que seja o primeiro entre seus iguais. – Montrag alisou as lapelas do roupão e inclinou a cabeça e o corpo como se tivesse posando para uma estátua de bronze.
– Um macho escolhido que esteja à altura do cargo e que tenha valor.
– E de que maneira seria escolhido esse modelo de virtudes?
– Vamos nos tornar uma democracia. Uma democracia há muito esperada e que substituirá a convenção injusta e desleal da monarquia.
Enquanto o blá-blá-blá continuava, Rehv se reclinou para trás, cruzou a perna sobre o joelho e uniu os dedos. Sentado no macio sofá de Montrag, suas duas metades entraram em conflito, vampiro
e sympatho começaram a se confrontar. O único benefício disso era
que os gritos internos sufocavam o som de todo aquele “Eu-sei-tudo”.
A intenção era óbvia: livrar-se do Rei e tomar o controle da raça.
Mas aquele ato era impensável. Matar um bom macho, um bom líder e… uma espécie de amigo.
– … e escolheríamos quem será nosso líder. Faríamos que fosse responsável pelo Conselho. Asseguraríamos que nossas preocupações fossem atendidas. – Montrag retornou ao sofá, sentou e se acomodou como se pudesse prosseguir inflando aquela história sobre o futuro durante horas. – A monarquia não está funcionando e a democracia é a única maneira…
Rehv interrompeu:
– Mas em geral, a democracia implica que todos podem votar. Digo isso só para o caso de você não estar familiarizado com a definição.
– Mas assim seria. Todos que servem no Conselho estariam na junta eleitoral. Todos seriam levados em conta.
– Mas veja bem, o termo todos não significa apenas “todos iguais a mim”.
Montrag lhe dirigiu um olhar carregado de “não seja ridículo” e disse:
– Você realmente confiaria a raça às classes baixas?
– Não depende de mim.
– Mas poderia. – Montrag levou a xícara aos lábios e observou-o por cima da borda com olhos penetrantes. – Seria perfeitamente possível.
Você é nosso lídher.
Olhando fixamente o homem, Rehv viu o caminho tão claramente como se estivesse pavimentado e iluminado com holofotes: se Wrath fosse assassinado, sua linhagem real terminaria, porque ainda não tinha gerado um filho. As sociedades, particularmente aquelas em guerra como a dos vampiros, abominam os vazios da liderança, portanto, uma mudança radical da monarquia à “democracia” não seria tão impensável quanto em outra época mais racional e segura.
A glymera poderia estar fora de Caldwell, escondida nos refúgios espalhados por toda a Nova Inglaterra, mas essa turma de filhos da mãe decadentes tinha dinheiro e influência e sempre desejou tomar o poder.
Com esse plano em particular, podiam disfarçar suas ambições com as vestimentas da democracia e fingir que estavam protegendo o povo.
A natureza obscura de Rehv fervilhava como um criminoso impaciente para obter a liberdade condicional. As más ações e os jogos de poder eram uma compulsão inerente àqueles que levavam o sangue de seu pai, e parte dele desejava criar o caos… E entrar nele.
Interrompeu as tolices presunçosas de Montrag:
– Me poupe da propaganda. O que está sugerindo exatamente?
O macho colocou demoradamente a xícara na mesa, como se quisesse aparentar que estava reunindo as palavras. Certo. Rehv podia apostar que o homem sabia exatamente o que ia dizer. Uma coisa dessa natureza não é algo que simplesmente se pensa na hora, e havia outras pessoas envolvidas. Tinha de haver.
– Como bem sabe, o Conselho irá se reunir em Caldwell dentro de alguns dias especificamente para ter uma audiência com o Rei. Wrath chegará e… haverá um acontecimento mortal.
– Ele sempre é acompanhado pela Irmandade. O que não é exatamente o tipo de força física que possa ser evitada facilmente.
– A morte pode usar muitas máscaras. E tem muitos e variados cenários onde atuar.
– E qual seria o meu papel? – Rehv perguntou, embora já soubesse.
Os pálidos olhos de Montrag pareciam de gelo, resplandecentes e frios.
– Sei que tipo de homem você é. Por isso, sei exatamente do que é capaz.
Aquilo não era surpresa. Durante os últimos vinte e cinco anos Rehv tinha sido um senhor das drogas e, embora não houvesse anunciado sua vocação para a aristocracia, os vampiros iam a seus clubes regularmente, e parte deles estava nas filas de clientes para obter seus produtos químicos.
Ninguém além dos Irmãos sabia de seu lado sympatho – e ele não teria revelado se pudesse evitar. Além disso, Rehv pagou muito bem sua chantagista nas últimas duas décadas para garantir que aquilo continuasse sendo um segredo.
– É por isso que o chamei – disse Montrag. – Você saberá como se encarregar disso.
– É verdade.
– Como lídher do Conselho, estará em uma posição de enorme poder. Mesmo que não seja eleito presidente, o Conselho não irá ser dissolvido. E fique tranquilo com respeito à Irmandade da Adaga Negra.
Sei que sua irmã é parceira de um deles. Os Irmãos não serão afetados por isso.
– Não acha que vai enfurecê-los? Wrath não é apenas o rei deles.
Também compartilha seu sangue.
– Proteger a nossa raça é obrigação primária da Irmandade. Eles devem nos seguir onde quer que formos. E você deve saber que muitas pessoas não estão contentes com o trabalho que eles vêm desenvolvendo.
Eu penso que talvez eles precisem de uma liderança melhor.
– Vinda de você. Sim. Claro.
Seria como um decorador de interiores comandando uma frota de tanques.
Que ótimo plano.
Mas... quem disse que Montrag tinha de ser o eleito? Acidentes acontecem tanto aos reis quanto aos aristocratas.
– Devo lembrar – continuou Montrag – aquilo que meu pai costumava me dizer: saber a hora de agir é tudo. Devemos nos apressar.
Podemos confiar em você, meu amigo?
Rehv levantou e inclinou-se em direção ao outro macho. Ajeitou os punhos do seu casaco Tom Ford, esticou a mão e pegou sua bengala. Não sentia nada no corpo, nem a roupa, nem o apoio das pernas, nem a ponta da bengala contra a palma da mão que tinha queimado com o chá. A dormência era um efeito colateral da droga que utilizava para evitar que seu lado sombrio viesse à tona. Era a prisão onde matinha suas tendências sociopatas.
Se deixasse de tomar apenas uma dose, seu corpo voltava ao normal.
E uma hora depois? Suas raízes de sympatho assumiriam o comando,
e a maldade se libertaria, pronta para brincar.
– O que me diz? – incitou Montrag.
Eis a questão, pensou Rehv.
Em alguns momentos da vida, entre a miríade de decisões corriqueiras como o que comer, onde dormir e o que vestir, surge uma verdadeira encruzilhada. Nesses momentos, quando a névoa da aparente irrelevância surge e o destino requer o livre-arbítrio, existem apenas duas opções, a da esquerda ou a da direita... Não é possível forçar e seguir em frente entre os dois caminhos, não é possível negociar com a escolha que lhe é imposta.
Você deve responder ao chamado e escolher seu caminho. E não há volta.
Claro, o problema era que navegar por uma paisagem moralista foi algo que Rehv precisou aprender para se encaixar em meio aos vampiros.
As lições que tinha aprendido tinham permanecido, embora só até certo ponto.
E suas drogas também tinham limites.
De repente, o rosto pálido de Montrag tornou-se uma variedade de tons de rosa, o cabelo escuro do homem ficou da cor de um vinho tinto e o roupão se tingiu da cor do sangue. Quando uma onda avermelhada coloriu tudo, o campo visual de Rehv se achatou como uma tela de cinema.
E talvez isso explicasse o motivo pelo qual os sympathos achavam tão fácil manipular as pessoas. Com seu lado obscuro assumindo o controle, o universo tinha a profundidade de um tabuleiro de xadrez, e as pessoas eram como peões em sua mão onisciente. Todos eles.
Inimigos… e amigos.
– Vou cuidar disso – anunciou Rehv. – Como você disse, sei o que tenho de fazer.




[1] Revista americana sobre cultura pop, moda e política.
[2] Diplomata americano e conselheiro de todos os presidentes dos USA, de 1968 a 1976.

3 comentários:

  1. Nossa! Estava com saudades de vocês! Comprei o meu Vingadinho na Bienal, ai que delícia! Gente como ele é enorme, o Amante e o livro! Amo Rehv! Um beijão para todas.

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  2. Comecei a ler a série agora e não consigo parar!!
    É apaixonante!
    Que Edward que nada! Eu quero é o Wrath! rsrsrs

    Acabei de me tornar seguidora!

    bj

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  3. Não é por menos que eu quero ler este livro, ou melhor, a série toda. Bjs, Rose.

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pitacos